Na vida, temos que estar preparados para tudo, mas confesso que a
situação que vivemos à frente do Conselho Regional de Farmácia do
Estado de São Paulo tem me deixado intrigado. Creio que ninguém que
dirige alguma entidade jamais enfrentou algo assim.
A verdade é que
não há do que reclamar da atual gestão do CRF-SP. A entidade está muito
bem administrada. Cumpre o orçamento adequadamente, investe em novos
projetos, respeita muito o Farmacêutico que paga anuidade com
sacrifício, oferecendo um atendimento excelente; cumpre o papel de
fiscalizar de forma intensiva e tem promovido inúmeras ações de
valorização da profissão perante a sociedade.
Pode-se dizer que nunca a entidade esteve tão bem e que nunca houve tantas ações que coloque o Farmacêutico em evidência.
Mas
há uma insatisfação generalizada na nossa classe: salários e condições
de trabalho. Por ser a entidade com a qual o Farmacêutico conta e a que
está mais presente, sempre em evidência, o CRF-SP acaba cobrado e
apontado como responsável por algo que não é da sua alçada e pelo qual
não tem responsabilidade. Até pelo contrário, não fosse o CRF-SP, a
nossa profissão estaria em condições muito piores.
Vejo-me tendo que
dar explicações e me justificar por algo que não tenho como intervir, e
isso angustia muito quem tem por princípio a defesa intransigente da
profissão, da saúde e do exercício legal e que tem certeza e a
consciência de que tudo tem feito nesse sentido.
Temos eleições para o
Conselho e pessoas se candidatando. Muitas delas com motivações bem
menos nobres do que a defesa da profissão e da saúde, que são os
objetivos do CRF, ou de quem quer se candidatar a conselheiro na
entidade. Onde está tudo bem e funcionando, quem quer entrar apenas para
ocupar as posições por anseio de poder, só pode mesmo tentar criar a
insatisfação, e é isso o que algumas pessoas vêm tentando fazer,
trazendo um assunto que não tem nada a ver com o CRF, como os salários.
Quando
assumi a atual gestão, resolvi incorporar a luta pelos salários e pela
dignidade profissional, mesmo sabendo que o nosso papel nessa discussão é
muito limitado, mas tem sido a nossa prática, explorar as
possibilidades ao limite para alcançar os objetivos.
Para atuar nessa
frente, precisamos compreender que esse não é um problema que se
resolve num passe de mágica, com uma lei, ou um simples decreto do CRF,
como muitos pensam. Diferentemente do que se tem propagado, os baixos
salários e a desvalorização geral da nossa profissão são consequência de
problemas sobre os quais nem os CRFs, nem qualquer outra entidade
farmacêutica, têm responsabilidade ou poder de intervenção direta.
Podemos
perceber que essa condição é consequência de um mercado saturado de
profissionais vindos de um número excessivo de faculdades. O atual
governo federal mantém uma política de ampliar o acesso à educação de
nível superior, o que é louvável, mas, para isso, permite a abertura de
cursos em todas as áreas de forma acelerada, sem muitas exigências, e
sem nenhum estudo sobre a necessidade de determinados profissionais numa
região. O próprio "mercado da educação" determina onde, quando e qual
curso deseja abrir. Uma vez abertos, não há nenhuma fiscalização sobre a
estrutura e qualidade desses cursos. Temos hoje no estado mais de cem
cursos de Farmácia, e um excesso de oferta de mão de obra de
Farmacêuticos. Dos 50.000 inscritos no CRF-SP, 25.000 são recém-formados
ou formados há pouco tempo.
Por outro lado, são 22.000 empresas
inscritas no CRF-SP, sendo 18.000 Farmácias e Drogarias. Assim, fica
claro que há muito mais profissionais do que a necessidade primária do
mercado. Pela lei básica do mercado, a abundância de mão de obra
desvaloriza muito os salários.
Some-se a isso, o fato de os
comerciantes que empregam a maioria dos Farmacêuticos têm uma visão
fechada de que Farmácias e Drogarias são simples estabelecimentos
comerciais e de que a exigência de Farmacêuticos não passa de um absurdo
sem sentido gerado por uma lei arcaica. Essa visão contribui para
piorar a situação, à medida em que esse mercado não busca mão de obra
qualificada e não está disposto a valorizar esse profissional. Apenas o
mantém para cumprir a lei e evitar as multas impostas pela fiscalização
do CRF-SP.
Pior ainda, muitos Farmacêuticos, por falta de opção,
aceitam trabalhar por valores até mesmo inferiores ao piso e em
condições degradantes, pois a massificação do ensino produz
profissionais sem postura adequada e sem a compreensão sobre o seu papel
na saúde e na sociedade. Estamos vivendo não só a precarização de
salários e de condições do exercício profissional, mas sim, um
verdadeiro processo de "banalização" da Farmácia como profissão.
Quando
se fala sobre mobilizar a categoria, ou quando se cobra do CRF-SP
alguma ação sobre esse problema, quando a suposta oposição diz que vai
mudar esse quadro, nunca é dito COMO!
Não há possibilidade de o CRF,
por exemplo, organizar uma greve ou outra ação desse tipo, mais aguda,
pois somos impedidos legalmente de fazer isso. Também a suposta
disposição para se aproximar do Sindicato, é invenção eleitoral, pois
isso nós já temos feito, apoiando essa entidade em todas as suas ações.
Não
há uma fórmula mágica para reverter esse quadro. As ações contra essa
realidade devem ocorrer em várias frentes, a longo prazo e não podem ser
executadas apenas pelo CRF-SP. Passam principalmente pela
conscientização do profissional sobre a postura correta que deve adotar e
da sociedade sobre o papel e a importância do Farmacêutico, pelas ações
junto a órgãos federais como MEC e ANVISA e junto ao Congresso
Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais, no sentido de
ampliar a legislação atual. Trabalho demorado e que requer união e
esforço de todos.
O CRF-SP tem investido muito em capacitação,
informação, atualização, movimentações junto à sociedade para demonstrar
a importância do Farmacêutico e ações políticas em todos os níveis.
Mantemos
a fiscalização em níveis que fazem com que o profissional continue
empregado. Mas nada disso é suficiente para conter a insatisfação dos
que querem a solução imediata e mágica e, para aliviar tudo isso,
precisam encontrar sempre um responsável ou alguém que supostamente
seria omisso na sua tarefa.
Não somos omissos na nossa tarefa de
lutar pela profissão e não nos furtamos de lutar em todas as frentes de
batalha possíveis para que possamos reverter a situação atual. Para essa
luta, temos empregado o melhor de nossas vidas, carreiras, sacrificado
momentos preciosos de nossas vidas familiares. Por isso, não aceitarei
as críticas que vêm sendo feitas injustamente ao CRF-SP, um orgulho para
a profissão Farmacêutica, construído corajosamente ao longo dos anos e
que tem sido a principal arma que temos para avançar.
Ponho à prova,
sim, a minha capacidade de criar novas ações e desafio os críticos que
nos superem, em criatividade e em efetividade as ações que já estamos
realizando.
Além da ação das entidades, também é necessária atitude
dos profissionais. Temos de manter o que já conquistamos, e, para isso, é
necessário um debate sério e honesto cujo objetivo seja o resgate da
nossa profissão.
No mais, quem tiver alguma sugestão sobre o que ainda poderíamos fazer nesse sentido, envie-nos. Serão muito apreciadas.