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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

ONG questiona preços, remédios e publicidade de grupos farmacêuticos no Brasil

Boehringer Ingelheim comercializa no Brasil o Buscopan Composto, proibido em outros países. Bayer vende caro um importante medicamento contra o câncer. E também a Baxter é criticada pela sua política de preços. 

O estudo Às custas dos pobres, realizado pela ONG alemã Bundeskoordination Internationalismus (Buko), pesquisou no Brasil a conduta de três multinacionais da indústria farmacêutica: as alemãs Bayer HealthCare e Boehringer Ingelheim e a norte-americana Baxter.

Entre janeiro de 2011 e junho de 2012 foram avaliadas a oferta de medicamentos, a política de preços e as estratégias de marketing dos três grupos. Apesar de alguns pontos positivos, como o fato de muitos medicamentos importantes produzidos pelas multinacionais serem comercializados no Brasil, as críticas se sobressaem: preços muito altos impedem o acesso a medicamentos importantes, remédios proibidos em outros países são vendidos no Brasil, algumas campanhas publicitárias são enganosas e combinações de substâncias oferecem riscos à saúde.

"O objetivo era identificar problemas nas estratégias dessas empresas e tentar mudar algumas de suas condutas", fala o pesquisador Rogério Hoefler, do Conselho Federal de Farmácia, que cooperou com o projeto da ONG alemã. "Para produtos que as empresas não podem comercializar na Alemanha, elas procuram um outro mercado e utilizam a fragilidade desses países na questão sanitária", completa o pesquisador. E o Brasil é um desses destinos.

Na avaliação de Hoefler, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) – que existe há pouco mais de dez anos – ainda encontra-se em seus primórdios em termos de atuação. Segundo o pesquisador, as empresas tiram proveito dessa situação. "Mesmo sabendo que o produto não seria adequado e seguro para ser comercializado, elas vão vendendo enquanto o governo permite", afirma.

Buscopan Composto
Essa declaração vale, por exemplo, para a Boehringer Ingelheim. O Buscopan Composto, por exemplo, é severamente criticado por conter a substância ativa metamizol, que pode desencadear diversas reações adversas no corpo, além de provocar uma redução drástica de glóbulos brancos, importantes para o sistema imunológico.

A substância é proibida nos EUA, no Reino Unido, na Austrália, no Canadá e na Suécia. Na Alemanha, os medicamentos que contêm metamizol foram retirados do mercado em 1990 e o uso da substância é limitado a determinados casos.

A pesquisa afirma que a Boehringer Ingelheim continua oferecendo o medicamento nas farmácias brasileiras por interesses econômicos: o Buscopan Composto é o medicamento mais vendido no país, tendo sido responsável por 11% do faturamento da Boehringer Ingelheim no Brasil em 2011.

Preços elevados e publicidade enganosa
Bayer: preços altos e propaganda enganosa
 
Já a Bayer HealthCare, sediada em Leverkusen, no oeste alemão, é criticada por suas peças publicitárias e seus altos preços. O medicamento Nexavar, muito importante no tratamento do câncer de fígado, custa no Brasil por mês para cada paciente um total de 2.934 euros (aproximadamente 7.300 reais) – um preço salgado até para a classe mais abastada, ressalta a pesquisa.

Além disso, certas "misturas absurdas de vitaminas" também foram criticadas. O complexo Supradyn Pré-Natal reúne 25 substâncias. Segundo especialistas, isso é problemático, uma vez que a reação do corpo à ingestão concomitante de tantos princípios ativos é imprevisível.

Além disso, as peças publicitárias do medicamento são questionáveis: num spot para a TV, mãe e filho tomam juntos um comprimido do composto vitamínico, enquanto degustam uma comida fast food, insinuando ao espectador uma alimentação que fornece energia ao corpo.

Sem colaboração
A norte-americana Baxter foi a que melhor se saiu nos resultados da pesquisa – mas é, também, a menos presente no mercado brasileiro entre as três empresas pesquisadas. Em 2011, a multinacional comercializou 53 produtos no país, ao passo que a Boehringer Ingelheim esteve presente com 104 medicamentos e a Bayer, com 167.

Uma das críticas à Baxter é, contudo, a política de preços. As parcelas mais pobres da população, bem como os hospitais públicos, acabam não tendo acesso aos remédios do fabricante. Além disso, a empresa não se dispôs a colaborar com o estudo e se recusou a responder os questionários enviados.

A equipe de pesquisadores tentou entrar em contato com as três multinacionais no Brasil, mas o retorno foi mínimo: apenas a Boehringer Ingelheim respondeu. "Essa falta de transparência é um aspecto muito importante. Percebemos que quase não existe um compromisso com a sociedade, nem uma transparência de informar o que fazem no Brasil", aponta Hoefler.

Conclusões finais
O estudo conclui que o livre acesso à saúde no Brasil esbarra principalmente nos altos preços dos medicamentos, principalmente no que diz respeito às chamadas "doenças da civilização", como enfermidades cardíacas e circulatórias, câncer ou diabetes, cujo tratamento depende muitas vezes de medicamentos de preços elevado. Para mudar essa situação são necessários investimentos enorme nos próximos anos, concluem os pesquisadores.

A pesquisa realizada no Brasil complementa projeto semelhante executado na Índia, em 2010, no qual a conduta das mesmas empresas foi analisada. O estudo será publicado no Brasil, em português, entre fevereiro e março de 2013.

O Brasil é o quarto maior mercado consumidor de medicamentos do mundo, depois dos EUA, da Alemanha e da França. Desde 2005, o mercado brasileiro cresce num ritmo acima dos 10%, em 2010 chegou até a 19% ao ano. Além disso, o Brasil é o país com maior número de farmácias do mundo – a Federação Brasileira das Redes Associativistas de Farmácias registra mais de 60 mil drogarias em todo o território nacional.

Autora: Christina Weise (sv)
Revisão: Alexandre Schossler

Fonte: Dw

terça-feira, 9 de novembro de 2010

ONG que tenta liberar maconha chega ao Brasil

ONG que tenta liberar maconha chega ao País

Ativistas americanos, derrotados neste mês em plebiscito na Califórnia, vão ao Congresso brasileiro defender a descriminação da droga

09 de novembro de 2010 | 0h 00
Uma das organizações não governamentais americanas mais atuantes em defesa da descriminação da maconha, a Norml, chega ao Brasil nas próximas semanas. Com sede no Rio, a ONG tentará formar grupos para lutar no Congresso pela liberação da droga.
"Nossas ações serão, basicamente, acompanhar o noticiário sobre maconha no País, organizar eventos e protestos, além de pressionar os legisladores para aprovar a descriminação da maconha. Nosso objetivo é combater a proibição da maconha para adultos", disse um dos gerentes da Norml, Ross Belvilly, de 42 anos. "Esperamos formalizar o contato em outras cidades para levar nossa mensagem."
Com sede na Califórnia, a Norml brasileira adaptará o discurso original. No lugar de propostas mais voltadas para o uso medicinal da droga, no Brasil, o discurso privilegiará a relação entre a venda ilegal e a violência.
"Queremos mostrar que a violência e os crimes relacionados com a maconha são decorrentes da proibição e não por causa da droga em si. O que você proíbe, você entrega aos bandidos. E criminosos fazem coisas de criminosos. Se você legalizar a maconha, verá que as pessoas que usam vão resolver os seus problemas no tribunal, como as pessoas que usam álcool ou tabaco resolvem", disse Belvilly. "Sei que o Brasil é um país muito religioso. Aqueles que cresceram na Igreja podem achar que maconha é coisa do mal. Os brasileiros têm de entender que a maconha é uma planta de Deus. O problema foi o jeito que se usou para controlá-la."
Segundo outro responsável em trazer a ONG para o Brasil, Ranieri Guimarães, a Norml pretende ser uma fundação. "Será uma entidade filantrópica. Vamos atuar na tradução de livros sobre o uso da maconha e pretendemos criar escolas."
Para um dos organizadores da Marcha da Maconha, o sociólogo Renato Athayde, no Brasil o apelo ao uso medicinal tem pouca influência sobre a população. "Vamos apoiá-lo, mas expliquei para eles que a população entende melhor a causa quando associada à violência."
Segundo o sociólogo, o Brasil tem pelo menos três organizações em defesa da liberação da maconha: a Psicotrópicos, a Grow Room (que prega o cultivo doméstico) e a Nova Sociedade Libertadora. "Pregamos também a defesa de outros direitos civis, como a descriminação do aborto, a união civil entre homossexuais e a eutanásia."
PARA LEMBRAR
A ONG Norml foi uma das principais defensoras do "sim" no plebiscito que acabou rejeitando a legalização da venda de maconha para uso pessoal na Califórnia, Estados Unidos. Na consulta pública, ocorrida no começo do mês, 54% dos votos foram contra a liberação, e 46% a favor.

Apesar da derrota, a droga continuará sendo vendida com receita médica no Estado. Os defensores da legalização exibiram três principais argumentos: poderia contribuir para a redução do crime organizado na fronteira com o México; a venda poderia elevar a receita do Estado com impostos e evitaria a prisão de milhares de jovens anualmente na Califórnia.

Opositores da liberação, porém, observam que a maconha pode causar problemas de saúde, afetando funções como a memória.

fonte:  http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101109/not_imp636941,0.php