Diário da Manhã
Salatiel Soares Correia
Quando ainda exercia a docência
universitária, a matéria que mais me motivava ministrar era Planejamento
Estratégico. Tinha por hábito enviar meus alunos para o trabalho de
campo nas diversas empresas da capital. No final do semestre,
promovíamos um amplo debate, alimentado pelos estudos de caso que as
pesquisas dos alunos orientados por este escriba proporcionavam.
Lembro-me de que, em um desses seminários, um grupo de
estudantes apresentou um interessante trabalho a respeito de uma
importante empresa goiana do setor farmacêutico. Para evitarmos os
inconvenientes da exposição pública, chamemos essa empresa – uma rede de
farmácias – de X.
A empresa X, tipicamente familiar, funcionava
amadoristicamente numa época de elevada inflação. Os donos simplesmente
não se entendiam uns com os outros. Inexistia uma estrutura
organizacional.
Ferramentas típicas de gestões mais elevadas, como é o
caso do Planejamento Estratégico, eram completamente desconsideradas.
Enfim, a empresa X era a face mais visível de como eram tocadas as
diversas empresas eminentemente goianas numa época em que inexistia a
competição: desprofissionalizadas, eram geridas de modo bastante amador.
Com isso, a empresa reagia passivamente e não proativamente.
Ou seja: ela era incapaz de prever o que poderia acontecer no seu
ambiente externo, para se adequar às mudanças ambientais. Além disso, os
donos do empreendimento era turrões no tocante às necessárias mudanças
que deveriam ser implementadas para que a empresa pudesse continuar a
sobreviver no negócio. “A coisa sempre funcionou assim. Assim sempre
ganhei dinheiro. Não vou mudar.”
No final do semestre, após a exposição do grupo que pesquisou a
empresa X, sentenciei: essa empresa está à beira da falência, e o dono
nem percebe isso. Passaram-se quinze anos desde que fiz essa previsão, e
não deu outra: hoje, a então a poderosa rede de farmácias não passa de
um retrato na parede. Seus proprietários estão literalmente falidos.
Os motivos da falência foram vários. Entre os mais
importantes, vale ressaltar um: a queda da inflação. A empresa, embora
tocada por uma gestão amadora, gerava receitas irreais, advindas da
inflação. Com o controle desta, para continuar a sobreviver no negócio, a
organização necessitava ter impregnado em sua cultura elevados
conceitos de gestão. Conceitos que ela, ao longo de sua existência,
desconsiderara. Assim, de uma hora para outra, a estrutura desmoronou
como um castelo de areia.
Foi-se embora aquele tempo em que o farmacêutico tinha uma
relação íntima com o cliente, a ponto de, sem ser médico, receitar, de
cabeça, o remédio para sua doença. Acabou-se o tempo em que as farmácias
eram um negócio que passava de pai para filho. Para se sobreviver
neste mundo globalizado, é necessário percepção, agilidade para
continuamente mudar e impessoalidade. Uma postura profissional, léguas
distante das relações paroquiais que caracterizavam os grupos familiares
como os aqui outrora existentes.
Creiam: diversos grupos goianos que, como a empresa X, por
anos funcionaram sem levar em conta os conhecimentos de gestão, estão
hoje sendo simplesmente engolidos pelos grandes conglomerados
farmacêuticos que aportam por aqui. É o preço que pagam por terem, ao
longo de sua existência, desprezado os imprescindíveis conhecimentos de
administração inerentes às empresas feitas para durar.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em
Administração de Empresas e mestre em Planejamento. É autor, entre
outros, do livro Goiás, a Globalização e o Futuro)
Fonte:
DM