O mineiro Guilherme Simão Gontijo, responsável
pela farmácia central que atende a dois campos de
refugiados no Sudão do Sul (Foto: Gregory
Vandendaelen / MSF)
Todos os dias centenas de refugiados cruzam a fronteira entre o Sudão e
o vizinho Sudão do Sul fugindo do conflito entre forças oficiais e
rebeldes e da falta de alimentos. Muitos andam por semanas até chegar a
quatro campos de refugiados que, desde junho, registram um número de
mortes e desnutrição acima dos padrões internacionais de emergência.
Foi este cenário que o brasileiro Guilherme Simão Gontijo encontrou ao
chegar, há um mês, para trabalhar em sua primeira missão na organização
humanitária Médicos sem Fronteiras no país.
Farmacêutico, ele trabalha
na distribuição de medicamentos e alimentos terapêuticos para os campos
de Doro e Batil, onde vivem mais de 34 mil refugiados.
“Cheguei no início da temporada de chuvas. Desde então, as estradas
ficaram ruins, o que fez com que a entrega de mercadorias demorasse mais
do que o normal. Também aumentaram os casos de malária. A gente está
numa corrida grande para tentar identificar as pessoas com a doença”,
contou ao
G1, via Skype, o mineiro de Muriaé.
Antes do período chuvoso, segundo ele, os refugiados enfrentavam longos
períodos de racionamento, com muitas famílias vivendo com apenas 7
litros de água por dia –o consumo normal é de cerca de 20 litros.
Além da malária, as chuvas também trouxeram outros problemas, segundo o
brasileiro. “Não existe saneamento básico. As pessoas vão chegando e
recebem tendas ondevão se abrigar. O MSF intensificou a distribuição de
latrinas para diminuir a possibilidade de contaminação pela água, mas
ainda é um problema muito sério.”
Como consequência, afirma o farmacêutico, aumentaram os casos de
diarreia, infecções e doenças respiratórias, principalmente entre
crianças desnutridas, mais suscetíveis à contaminação.
“Nosso objetivo é tentar reforçar o organismo dessas crianças para,
então, poder combater estas doenças. Com a alimentação, elas ficam mais
aptas a responder a um tratamento com antibióticos. No momento, o foco
do MSF é combater a desnutrição”, afirma.
Desnutrição e mortesNum
dos campos em que Gontijo trabalha, o de Batil, no estado de Alto Nilo,
uma em cada três crianças está desnutrida, segundo relatório divulgado
pela organização na última sexta-feira (3). O índice de desnutrição
severa aguda, de 10,1%, é cinco vezes mais elevado que o patamar de
emergência.
A situação é ainda mais grave no vizinho campo de Yida, que abriga os
55 mil refugiados no estado de Unity, o estudo realizado em junho e
julho aponta uma média de cinco mortes de crianças por dia, a maioria
por diarreia e infecções graves.
Imagem
de 26 de julho mostra a sudanesa Akim Faha segurando a filha Tuna Osman
em um dos hospitais de campo do Médicos sem Fronteiras no campo de
refugiados de Batil, no Sudão do Sul (Foto: AFP)
“A maioria dos nossos pacientes em ambos os acampamentos são crianças
desnutridas que ficam mais enfraquecidas quando têm diarreia, malária ou
infecções respiratórias. Elas rapidamente entram em um círculo vicioso
de doenças que podem levar a complicações e à morte. Nossas equipes
médicas estão trabalhando sem parar em condições desesperadoras tentando
salvar vidas”, relata o coordenador geral de MSF, André Heller-Pérache,
no material divulgado pela organização.
Guilherme Gontijo descreve como o mais difícil em sua primeira missão
lidar com mudanças na distribuição de alimentos e medicamentos para
poder atender a uma população em um limite muito perigoso. "Neste tipo
de missão temos que estar preparados para todo tipo de adversidade,
saber lidar com prioridades. Às vezes ficamos com muito pouco [de ajuda
humanitária], mas temos que conseguir atender todos de forma correta."
Mais jovem país do mundoMais jovem país do mundo,
o Sudão do Sul se emancipou em 9 de julho do ano passado, após uma
votação nacional prevista no acordo de paz que pôs fim à 21 anos de luta
entre o governo do Sudão e os rebeldes do Sul – a mais longa gerra
civil africana, que matou 2 milhões de pessoas e forçou o deslocamento
de 4 milhões, segundo a ONU.
A separação, no entanto, não ajudou a situação do novo país onde,
segundo a ONU, 90% da população é considerada pobre e uma em cada sete
crianças morre antes de completar um ano.
Fonte:
G1